Então... Aqui está o epílogo que você não queria, para o conto que você não leu.
***
A mãe de Cherry olhava apreensiva enquanto as pessoas entravam na casa.
"Vamos, Laura...", disse alguém, mas ela sequer notou.
Laura ainda estava do lado de fora da casa depois que a última pessoa entrou. Ela aproveitava a brisa fria da noite para tentar se acalmar. Com todas as forças tentava impedir que os olhos se enchessem d'água, pois sabia que se começasse a chorar teria uma crise de nervos e seria incapaz de seguir com o que devia ser feito naquela noite.
Ela olhou para o céu e só viu nuvens grandes e cinzas. Enquanto tentava, sem sucesso, achar uma estrela para tentar tirar sua mente da espiral descendente de desespero em que se encontrava foi surpreendida por uma voz grave, rouca, e silenciosa atrás de si.
"Estamos começando, Laura... Você tem que vir", disse o velho alto e magro, de cabelos grisalhos mas aparência forte parado na porta.
O seu tom era calmo e autoritário. O que devia ser feito, devia ser feito. Era simples assim. O velho preferia não perder tempo com coisas que não podia mudar, e não tinha tempo nem paciência para lidar com as emoções dela.
"Tudo bem. Eu estou indo."
Laura respirou fundo, deixando o ar frio encher seus pulmões, e se virou para entrar na casa. Assim que o velho viu que ela estava indo, entrou na escuridão da casa e sumiu, deixando pra trás somente o barulho de seus passos decididos.
Ela navegou pela escuridão da casa com calma, ainda tentando atrasar o máximo possível sua chegada na reunião, como se isso pudesse de alguma forma mudar algo. Mas não podia. O cheiro levemente adocicado que subia pelas escadas que levavam ao porão eram a maior prova daquilo.
Quando chegou no alto das escadas que desciam para o salão iluminado, viu que uma de suas vizinhas esperava nos degraus no meio do caminho.
"Laura... Eu... Eu nem imagino o que você esteja sentindo... Mas... Você sabe... Se pudesse ser diferente... Se..."
"Não pode.", Laura respondeu rispidamente e seguiu descendo os degraus, passando pela outra sem nem olhá-la.
Decidiu que tomar a atitude do velho era o melhor que podia fazer naquele momento, nada que ninguém pudesse dizer poderia mudar alguma coisa. Ela tinha que participar do ritual.
O salão subterrâneo era amplo e iluminada por dezenas de tochas e velas. Estátuas cujas sombras brincavam nas paredes acompanhando as luzes bruxuleantes rodeavam o lugar. Corpos humanos com cabeças de gatos, cachorros, crocodilos... Ao fundo um pequeno elevado com um púlpito ao centro. E no meio do salão uma enorme e comprida mesa de madeira, com muito lugares, a maioria já ocupado.
O velho estava subindo no elevado e se dirigiu para trás do púlpito, onde depositou um pesado livro de aparência ancestral. Laura seguiu para um dos lugares vagos a mesa, seguida pela sua vizinha que descera as escadas apressadamente atrás de si.
Então o velho começou a ler o livro em voz alta, sendo às vezes respondido em uníssono pelos presentes. Mas Laura não prestava atenção nenhuma das palavras que ecoavam pelo salão. Seus olhos estavam fixados, aterrorizados, no prato de metal que estava a sua frente. Em cima do prato, um pedaço suculento de carne.
Ela encarou a carne e teve que se controlar para não vomitar. Começou a pensar em como poderia fazer aquilo. Como poderia fazer aquilo sem entrar em pânico. Sua respiração começou a ficar mais e mais rasa e rápida. Não conseguia tirar os olhos do pedaço de carne no prato, o pedaço de carne ainda sangrando.
Mas quando pensou que não seria mais capaz de aguentar e soltaria um grito, sentiu as mãos enrugadas e calejadas do velho em seus ombros. E então... Se acalmou. Ou ao menos o tanto quanto era possível naquela situação.
O velho apertou levemente seus ombros e então seguiu o caminho para o último lugar vago na cabeceira da mesa.
"Mais uma vez os sinais foram recebidos por um oráculo que se tornou sacrifício. Mais uma vez nos reunimos para garantir que o ritual seja realizado.", disse o velho.
E então ele tocou o sangue que escorria do pedaço de carne em seu prato com a ponta do indicador direito, e o levou então até a ponta da língua.
A gente vê por aqui...
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quarta-feira, 14 de setembro de 2016
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Parcimônia Frenética #11 - Na ponta da língua (Parte 9 - Final)
"Temos o sacrifício..."
"..."
"Uma delas recebeu todos os sinais..."
"..."
"Eu sinto muito..."
***
Seus pensamentos entraram num turbilhão tão confuso e agitado que era como se sua mente tivesse subitamente esvaziado. Uma sensação forte de enjoo lhe abateu ela pôde sentir o conteúdo recém adquirido do seu estômago revirando-se e subindo pelo seu esôfago. Por um momento esqueceu até mesmo de respirar.
As pernas perderam a força e quase cederam sob o seu peso, mas Cherry não se permitiu cair. Forçou seu estômago a se assentar e respirou profundamente. Gotas de suor frias escorriam pelo seu rosto. E ela finalmente começou a acreditar que aquela reação não era mera preocupação, que 'algo' acompanhava aquele gesto. Algo que ela sentia como uma onda de energia negativa varrendo seu corpo e apertando seu peito.
Finalmente começou a agarrar seus pensamentos e se dar conta dos seus arreadores. E notou que as pessoas que passavam a olhavam com estranheza e preocupação. Enxugou, então, apressadamente o rosto com o dorso das mãos, e esforçou-se para caminhar.
Andou sem rumo algumas dezenas de metros, até se encontrar num minúsculo canteiro arborizado com um banco simples de madeira. Sentou-se no banco e largou o peso do copo nos cotovelos sobre os joelhos.
Ficou um tempo ali até que notou que alguém se aproximava. Não muito tarde, mas também não tão cedo quanto gostaria. Só pôde ver quem era quando a pessoa já estava a poucos passos dela: Beverly. Uma das garotas que andava com ela e seus amigos, mas Cherry não a considerava especificamente uma amiga. Sabia muito bem que ela e Jeanette só andavam com eles por causa de Josh. E também sabia que Bev e Jean eram meninas cruéis, esnobes, e típicas "patricinhas", mas se escondiam em papéis de inocentes e politicamente corretas só para agradarem o garoto.
- Cherry? Tá tudo bem com você?
Riu consigo mesma ao imaginar o quão mal deveria estar parecendo para instigar esse grau de preocupação de Bev. E sua risadinha nervosa fez com que Bev desse dois passos cautelosos para trás, genuinamente amedrontada da menina que parecia ter saído de um filme B de assombração.
- Oi, Bev... - respondeu Cherry levantando levemente a cabeça - Tá tudo bem... Se preocupa não...
- Tem certeza? Você parece que tá passando mal ou sei lá...
Cherry se levantou, o que fez Bev dar mais dois passos cautelosos para trás, e fez o melhor que podia para oferecer um sorriso.
- Tenho. Obrigada, Bev... Mas juro que estou bem.
Beverly não estava exatamente convencida, mas também não ia passar a chance de evitar maior contato direto com Cherry.
- Bem... Se você estiver com problemas, ou precisar de alguma coisa... Tipo, me liga. Mas você devia ir pra casa mesmo. Porque, tipo assim, você não está com uma cara muito boa.
Cherry se resumiu a acenar afirmativamente com a cabeça e depois observar a outra garota se afastar. Ela deu mais uma risada da situação absurda e se pôs a caminho de casa.
***
Ao chegar em casa, se espantou ao encontrar sua mãe na sala. Os olhos estavam inchados e vermelhos, muito vermelhos, o rosto chegava a estar manchado com as lágrimas. Ela levantou assim que Cherry entrou pela porta e foi até ela, para então lhe dar um abraço forte e espremido.
- Mãe... Mãe... Mãe! O que cê tá fazendo?! Cê tá me sufocando! Mãaaae...
Sua mãe lhe soltou em virtude dos resmungos e reclamações, e lhe deu um sorriso triste e cansado.
- Tá tudo bem, mãe? Você está estranha.
- Vai ficar tudo bem, Esther... - disse sua mãe com uma calma forçada e anormal.
- Tem certeza?
Sua mãe somente acenou afirmativamente com a cabeça e se dirigiu para a cozinha.
- Vem. Eu fiz janta. Macarrão com queijo, um dos seus favoritos. E tem sorvete de menta com chocolate chips no congelador.
Cherry largou seus sapatos na sala no caminho para a cozinha, e jogou a mochila no sofá. Não estava exatamente com fome, mas não poderia negar macarrão com queijo e sorvete de menta com chips. E também não podia negar a companhia da mãe, que ultimamente estava tão estranha.
Ela comeram calmamente, jogando conversa fora e rindo em frente a TV. Sua mãe habilmente evitou falar sobre qualquer coisa séria ou a atual situação estranha das duas. Cherry estranhou, mas não reclamou. Aquele era um bom primeiro passo. Amanhã poderia sentar e conversar com ela sobre a coisa toda do gesto bizarro. E também poderia perguntar o que tanto afligia ela nos últimos dias.
O sol já havia se posto há muito tempo quando finalmente terminaram o pote de sorvete. Ambas se sentiam tão empanturradas que quase não tiveram coragem para rolar para fora do sofá. Mas eventualmente encontraram forças para levantar. Cherry foi tomar uma ducha enquanto sua mãe lavava a louça. E então a garota esperou na sua cama enquanto sua mãe também se limpava e se arrumava para dormir.
Finalmente sua mãe foi até seu quarto e lhe deu um beijo na testa, como há um bom tempo não fazia.
- Boa noite, minha menininha.
- Boa noite, mãe...
Cherry se despediu com um sorriso no rosto e uma sonolência anormal. Até então pensou que teria muita dificuldade para dormir, mas depois de tudo suas pálpebras estavam anormalmente pesadas. Seu corpo estava dormente e ela nem notou as lágrimas de sua mãe que pingavam no seu rosto.
***
No meio da madrugada, Cherry foi acordada num susto por um barulho. Eram passos, muitos passos. Alguns mais pesados e outros mais leves. Subiam as escadas.
Tentou se levantar, alarmada, mas notou que seus membros estavam pesados e não respondiam.
Tentou gritar pela sua mãe, mas a língua parecia inchada e seca em sua boca, e não conseguiu produzir nada além de um sussurro.
A porta do seu quarto foi aberta com intensidade e descuido. Confusa e amedrontada, Cherry viu não uma, nem duas, mas várias pessoas entrando em seu quarto.
Com um sentido de ansiedade crescente, percebeu que podia reconhecer algumas daquelas pessoas. A velhinha, a primeira. O homem que correra atrás do ônibus. Pessoas que fizeram o gesto.
E então, por um momento, se sentiu animada e esperançosa ao ver sua mãe entrar atrás de todas aquelas pessoas. E euforicamente tentou emitir algum som chamando por ela.
Mas uma aterrorizante compreensão caiu sobre ela quanto todos eles, sua mãe entre eles, puseram a língua levemente para fora da boca e tocaram em sua ponta com o indicador direito enquanto a encaravam intensamente.
Um onda de dor e pânico a atingiu com força e ela começou a gritar e espernear, mas só conseguia produzir guinchos e tremer as pernas de leve.
Aquela forte sensação de enjoo e uma pontada de dor na cabeça, um forte aperto no peito... Mas ela lutou.
Lutou tanto que começou a recuperar o movimento dos membros e conseguiu se mexer com tanta força que caiu na cama.
Todas aquelas pessoas no seu quarto somente a encaravam, num silêncio e imobilidade anormais, enquanto ela se arrastava pelo chão até a janela.
Conseguiu segurar nas cortinas e se puxou com força tentando se por de pé.
Foi então que uma outra figura surgiu, e se dirigiu para dentro do quarto enquanto a pequena multidão que estava ali abria caminho de forma quase que respeitosa.
Um homem muito alto, de cabelos bem brancos e ralos. Parecia bem velho, mas também parecia forte e saudável. Ele carregava uma grande sacola de pano nas mãos, se ia na direção de Cherry com passos certos e decididos.
Cherry ainda tem tinha conseguido se levantar e olhou para o homem com temor e súplica, os olhos se enchendo de lágrimas. Mas o velho parecia impassível.
Por fim, tentou encontrar o olhar da mãe. Tentou gritar por ela de novo. Perguntar para ela o que estava acontecendo e porque estavam fazendo isso com ela.
Mas antes que conseguisse encontrar a mãe no meio daquelas pessoas, o saco de pano voou sobre a sua cabeça. E ela sentiu braços fortes a agarrando e levantando do chão.
E então só havia escuridão...
"..."
"Uma delas recebeu todos os sinais..."
"..."
"Eu sinto muito..."
***
Seus pensamentos entraram num turbilhão tão confuso e agitado que era como se sua mente tivesse subitamente esvaziado. Uma sensação forte de enjoo lhe abateu ela pôde sentir o conteúdo recém adquirido do seu estômago revirando-se e subindo pelo seu esôfago. Por um momento esqueceu até mesmo de respirar.
As pernas perderam a força e quase cederam sob o seu peso, mas Cherry não se permitiu cair. Forçou seu estômago a se assentar e respirou profundamente. Gotas de suor frias escorriam pelo seu rosto. E ela finalmente começou a acreditar que aquela reação não era mera preocupação, que 'algo' acompanhava aquele gesto. Algo que ela sentia como uma onda de energia negativa varrendo seu corpo e apertando seu peito.
Finalmente começou a agarrar seus pensamentos e se dar conta dos seus arreadores. E notou que as pessoas que passavam a olhavam com estranheza e preocupação. Enxugou, então, apressadamente o rosto com o dorso das mãos, e esforçou-se para caminhar.
Andou sem rumo algumas dezenas de metros, até se encontrar num minúsculo canteiro arborizado com um banco simples de madeira. Sentou-se no banco e largou o peso do copo nos cotovelos sobre os joelhos.
Ficou um tempo ali até que notou que alguém se aproximava. Não muito tarde, mas também não tão cedo quanto gostaria. Só pôde ver quem era quando a pessoa já estava a poucos passos dela: Beverly. Uma das garotas que andava com ela e seus amigos, mas Cherry não a considerava especificamente uma amiga. Sabia muito bem que ela e Jeanette só andavam com eles por causa de Josh. E também sabia que Bev e Jean eram meninas cruéis, esnobes, e típicas "patricinhas", mas se escondiam em papéis de inocentes e politicamente corretas só para agradarem o garoto.
- Cherry? Tá tudo bem com você?
Riu consigo mesma ao imaginar o quão mal deveria estar parecendo para instigar esse grau de preocupação de Bev. E sua risadinha nervosa fez com que Bev desse dois passos cautelosos para trás, genuinamente amedrontada da menina que parecia ter saído de um filme B de assombração.
- Oi, Bev... - respondeu Cherry levantando levemente a cabeça - Tá tudo bem... Se preocupa não...
- Tem certeza? Você parece que tá passando mal ou sei lá...
Cherry se levantou, o que fez Bev dar mais dois passos cautelosos para trás, e fez o melhor que podia para oferecer um sorriso.
- Tenho. Obrigada, Bev... Mas juro que estou bem.
Beverly não estava exatamente convencida, mas também não ia passar a chance de evitar maior contato direto com Cherry.
- Bem... Se você estiver com problemas, ou precisar de alguma coisa... Tipo, me liga. Mas você devia ir pra casa mesmo. Porque, tipo assim, você não está com uma cara muito boa.
Cherry se resumiu a acenar afirmativamente com a cabeça e depois observar a outra garota se afastar. Ela deu mais uma risada da situação absurda e se pôs a caminho de casa.
***
Ao chegar em casa, se espantou ao encontrar sua mãe na sala. Os olhos estavam inchados e vermelhos, muito vermelhos, o rosto chegava a estar manchado com as lágrimas. Ela levantou assim que Cherry entrou pela porta e foi até ela, para então lhe dar um abraço forte e espremido.
- Mãe... Mãe... Mãe! O que cê tá fazendo?! Cê tá me sufocando! Mãaaae...
Sua mãe lhe soltou em virtude dos resmungos e reclamações, e lhe deu um sorriso triste e cansado.
- Tá tudo bem, mãe? Você está estranha.
- Vai ficar tudo bem, Esther... - disse sua mãe com uma calma forçada e anormal.
- Tem certeza?
Sua mãe somente acenou afirmativamente com a cabeça e se dirigiu para a cozinha.
- Vem. Eu fiz janta. Macarrão com queijo, um dos seus favoritos. E tem sorvete de menta com chocolate chips no congelador.
Cherry largou seus sapatos na sala no caminho para a cozinha, e jogou a mochila no sofá. Não estava exatamente com fome, mas não poderia negar macarrão com queijo e sorvete de menta com chips. E também não podia negar a companhia da mãe, que ultimamente estava tão estranha.
Ela comeram calmamente, jogando conversa fora e rindo em frente a TV. Sua mãe habilmente evitou falar sobre qualquer coisa séria ou a atual situação estranha das duas. Cherry estranhou, mas não reclamou. Aquele era um bom primeiro passo. Amanhã poderia sentar e conversar com ela sobre a coisa toda do gesto bizarro. E também poderia perguntar o que tanto afligia ela nos últimos dias.
O sol já havia se posto há muito tempo quando finalmente terminaram o pote de sorvete. Ambas se sentiam tão empanturradas que quase não tiveram coragem para rolar para fora do sofá. Mas eventualmente encontraram forças para levantar. Cherry foi tomar uma ducha enquanto sua mãe lavava a louça. E então a garota esperou na sua cama enquanto sua mãe também se limpava e se arrumava para dormir.
Finalmente sua mãe foi até seu quarto e lhe deu um beijo na testa, como há um bom tempo não fazia.
- Boa noite, minha menininha.
- Boa noite, mãe...
Cherry se despediu com um sorriso no rosto e uma sonolência anormal. Até então pensou que teria muita dificuldade para dormir, mas depois de tudo suas pálpebras estavam anormalmente pesadas. Seu corpo estava dormente e ela nem notou as lágrimas de sua mãe que pingavam no seu rosto.
***
No meio da madrugada, Cherry foi acordada num susto por um barulho. Eram passos, muitos passos. Alguns mais pesados e outros mais leves. Subiam as escadas.
Tentou se levantar, alarmada, mas notou que seus membros estavam pesados e não respondiam.
Tentou gritar pela sua mãe, mas a língua parecia inchada e seca em sua boca, e não conseguiu produzir nada além de um sussurro.
A porta do seu quarto foi aberta com intensidade e descuido. Confusa e amedrontada, Cherry viu não uma, nem duas, mas várias pessoas entrando em seu quarto.
Com um sentido de ansiedade crescente, percebeu que podia reconhecer algumas daquelas pessoas. A velhinha, a primeira. O homem que correra atrás do ônibus. Pessoas que fizeram o gesto.
E então, por um momento, se sentiu animada e esperançosa ao ver sua mãe entrar atrás de todas aquelas pessoas. E euforicamente tentou emitir algum som chamando por ela.
Mas uma aterrorizante compreensão caiu sobre ela quanto todos eles, sua mãe entre eles, puseram a língua levemente para fora da boca e tocaram em sua ponta com o indicador direito enquanto a encaravam intensamente.
Um onda de dor e pânico a atingiu com força e ela começou a gritar e espernear, mas só conseguia produzir guinchos e tremer as pernas de leve.
Aquela forte sensação de enjoo e uma pontada de dor na cabeça, um forte aperto no peito... Mas ela lutou.
Lutou tanto que começou a recuperar o movimento dos membros e conseguiu se mexer com tanta força que caiu na cama.
Todas aquelas pessoas no seu quarto somente a encaravam, num silêncio e imobilidade anormais, enquanto ela se arrastava pelo chão até a janela.
Conseguiu segurar nas cortinas e se puxou com força tentando se por de pé.
Foi então que uma outra figura surgiu, e se dirigiu para dentro do quarto enquanto a pequena multidão que estava ali abria caminho de forma quase que respeitosa.
Um homem muito alto, de cabelos bem brancos e ralos. Parecia bem velho, mas também parecia forte e saudável. Ele carregava uma grande sacola de pano nas mãos, se ia na direção de Cherry com passos certos e decididos.
Cherry ainda tem tinha conseguido se levantar e olhou para o homem com temor e súplica, os olhos se enchendo de lágrimas. Mas o velho parecia impassível.
Por fim, tentou encontrar o olhar da mãe. Tentou gritar por ela de novo. Perguntar para ela o que estava acontecendo e porque estavam fazendo isso com ela.
Mas antes que conseguisse encontrar a mãe no meio daquelas pessoas, o saco de pano voou sobre a sua cabeça. E ela sentiu braços fortes a agarrando e levantando do chão.
E então só havia escuridão...
terça-feira, 22 de março de 2016
Parcimônia Frenética #10 - Na ponta da língua (Parte 8)
No dia seguinte, Cherry acordou se sentindo mal. Estava deitada numa posição estranha na cama, os travesseiros jogados no chão. Seus músculos estavam tensos e doloridos, e sua cabeça pulsava dolorosamente. Ao passar as mãos nos olhos notou o rosto molhado e grudento, como se tivesse chorado dormindo. Os cabelos estavam insanamente embaraçados e despenteados.
Amaldiçoou mentalmente a crise de insônia intensa que seu cérebro hiperativo lhe proporcionara na noite anterior enquanto se esforçava para levantar e arrumar a cama. Mas não havia muito o que podia fazer. Todas aquelas informações e preocupações povoando a sua mente, a sensação de que poderia estar próxima das respostas que buscava, a relação tensa com sua mãe... O que realmente lhe surpreendera era o fato de ter dormido até depois das onze, permanecendo imune aos apelos constantes do despertador do celular ao lado da cama. Um feito no mínimo raríssimo, se não inédito de fato.
Aquele estado pedia um banho quente. Longo e relaxante. Uma sessão de hidratação capilar também.
Ao atravessar o corredor em direção ao banheiro notou a porta do quarto da mãe fechada, mas ouviu barulhos que indicavam sua presença vindo lá de dentro. Parou por alguns segundos em frente a porta, sem saber se batia ou não. Estava preocupada com a mãe, mas ainda não fazia ideia de como falar com ela sem acabar trazendo todos os seus próprios problemas em pauta. Tocou a porta como se quisesse alcançar a mãe, mas por fim seguiu em frente.
Tomou uma boa "chuveirada" e lavou os cabelos enquanto a banheira enchia de água quente. Aplicou a máscara hidratante e pôs a touca térmica. E finalmente deixou seu corpo submergir no abraço confortável da água quente. Respirou fundo os vapores perfumados da banheira repleta de espuma e sais de banho. E sentiu o estresse acumulado de muitos dias de paranoia diluindo-se no calor úmido da banheira.
Depois de sair muito a contragosto do banho relaxante e drenar a banheira. Terminou o processo de lavar a máscara capilar e então aplicar o condicionador. E foi só quando se enrolou na toalha e já estava saindo do banheiro que notou o espelho embaçado e fez questão de limpá-lo, que finalmente pode dar uma boa olhada em si mesma pela primeira vez em alguns dias.
Haviam profundas olheiras sob seus olhos que davam um aspecto meio sombrio e doentio ao seu semblante. Seus cabelos, normalmente de rosa chiclete alegre ou outra cor igualmente vibrante, estavam quase que totalmente descoloridos. Seus lábios estava rachados e feridos de tanto morde-los de preocupação e ansiedade. A pele estava definitivamente pálida e ressecada, completando o quadro cadavérico de sua aparência atual.
Balançando a cabeça veementemente para espantar os pensamentos sobre sua aparência da cabeça, Cherry saiu vigorosamente pela porta. Não tinha tempo para se preocupar com essas coisas supérfluas, havia acordado tarde e ainda tinha muito a pesquisar na biblioteca que ainda fecharia mais cedo por ser Domingo. Passou na cozinha para pegar qualquer coisa para ir comendo no caminho depois de se vestir e saiu apressada de casa. Sua mãe não havia ainda saído do quarto, mas não tinha tempo para se preocupar com isso também.
***
Dessa vez fez o caminho de forma muito mais fluida e rápida, tendo as memórias da viagem anterior frescas em sua mente. Chegando logo ao seu destino e prontamente se dirigindo às seções onde se encontravam os livros que buscava. Pensou ter visto a bibliotecária simpática de cabelos roxos quanto entrou, mas ao olhar novamente não pode encontrar sinal algum da mesma.
Tão logo tinha seu material de estudo selecionado, encontrou uma mesa no canto da ainda mais vazia biblioteca do que de costume e pôs-se a continuar sua pesquisa sobre o gesto que a assombrava. E graças a coincidência estranha da seita secreta de magos egípcios apontada por John, tinha uma nova pista: sociedades secretas.
As poucas horas que tinha antes que a biblioteca se fechasse passaram tão depressa que nem notou seu estômago roncando de fome. Notou menos ainda que as poucas pessoas que passavam por ali foram todas embora e já não sobrava ninguém. A única coisa que a fez finalmente emergir das páginas empoeiradas foi a sombra de alguém parando a sua frente.
Levantou os olhos lentamente para dar de cara, para sua surpresa, com a bibliotecária simpática do dia anterior.
- Hey...! - Cherry disse com uma animação decrescente ao notar a expressão desconcertada da mesma.
- Oi... Bem... É que... Nos estamos, meio que, fechando... Agora...
Cherry a olhou meio pasma por alguns segundos, com a boca pendendo vergonhosamente aberta, antes de se dar conta do que aquilo queria dizer.
- Ih! Droga! - respondeu se desesperando e desajeitadamente começando a empilhar todos os livros.
A bibliotecária riu e tocou seu ombro.
- Calma, está tudo bem... Eu guardo os livros, é meu trabalho, sabe?
- Ah... Mas... Não. Você vai sair atrasada por minha culpa, né? Não, não, não... Olha só... Eu te ajudo a guardar os livros. Sei direitinho onde eles estavam. A gente termina rapidinho!
Rindo ainda mais, a bibliotecária tentou convence-la de que estava tudo bem, mas finalmente cedeu a insistência da garota. E as duas juntas puseram os livros em seus devidos lugares e terminaram de arrumar o que faltava da biblioteca antes de saírem.
Depois de se despedir de algumas pessoas que ficaram para terminar de trancar o lugar, a bibliotecária se aproximou de Cherry com aquele sorriso simpático que era sua marca registrada.
- Então... Você está com fome?
- Hã? - respondeu a garota confusa.
- Fome. Comida. Você come, não é? Você chegou aqui na hora do almoço e não comeu nada até agora... Deve estar com fome.
- Ah... Sim... Pra falar a verdade eu estou, mas-
Antes que pudesse dizer mais qualquer palavra ou inventar uma desculpa qualquer, a bibliotecária disse de forma autoritária:
- Então vamos comer. Tem uma lanchonete aqui perto que faz uns sanduíches vegetarianos sensacionais. Não que eu seja vegetariana, mas eles são tão bons assim.
Incapaz de negar, Cherry simplesmente acenou a cabeça e a acompanhou. O sanduíche era realmente bom, e realmente a deixou satisfeita. Nunca havia comido rodelas de pepino tão bem temperadas que poderiam facilmente substituir um hambúrguer caprichado. Sua fome também era tamanha que mal pôde conversar, mas ainda assim a bibliotecária conseguiu faze-la rir uma ou duas vezes.
Quando tentou pagar a sua conta, foi impedida sem chances de argumentação. A bibliotecária era muito simpática, sim, mas também tinha aquela característica impositiva e incisiva que se espera de bibliotecárias que não dava muito espaço para qualquer discussão. Mas Cherry não reclamaria, aqueles momentos tinham sido os mais alegres da sua semana.
A garota acompanhou a bibliotecária até, surpreendentemente, sua moto. E depois admirar e fazer mil perguntas sobre incrível a chopper retrô da mesma, finalmente se despediu.
Depois de dar as costas e alguns passos, Cherry finalmente se deu conta que em nenhum momento havia perguntado o nome da bibliotecária. Após perceber sua incrível falta de tato, ela parou e se virou depressa. E apesar de estar esperando que a bibliotecária já estivesse indo embora, a encontrou no mesmo lugar, montada na moto e olhando diretamente para ela.
- Sinto muito... - disse a bibliotecária de uma forma que Cherry mais leu em seus lábios do que ouviu propriamente.
E então, a bibliotecária pôs a língua para fora e com o indicador direito tocou em sua ponta. Em seguida virou-se, ligou a moto e partiu. Enquanto Cherry ficou lá, paralisada no mesmo lugar, com o seu coração batendo mais forte do que imaginava ser possível.
Amaldiçoou mentalmente a crise de insônia intensa que seu cérebro hiperativo lhe proporcionara na noite anterior enquanto se esforçava para levantar e arrumar a cama. Mas não havia muito o que podia fazer. Todas aquelas informações e preocupações povoando a sua mente, a sensação de que poderia estar próxima das respostas que buscava, a relação tensa com sua mãe... O que realmente lhe surpreendera era o fato de ter dormido até depois das onze, permanecendo imune aos apelos constantes do despertador do celular ao lado da cama. Um feito no mínimo raríssimo, se não inédito de fato.
Aquele estado pedia um banho quente. Longo e relaxante. Uma sessão de hidratação capilar também.
Ao atravessar o corredor em direção ao banheiro notou a porta do quarto da mãe fechada, mas ouviu barulhos que indicavam sua presença vindo lá de dentro. Parou por alguns segundos em frente a porta, sem saber se batia ou não. Estava preocupada com a mãe, mas ainda não fazia ideia de como falar com ela sem acabar trazendo todos os seus próprios problemas em pauta. Tocou a porta como se quisesse alcançar a mãe, mas por fim seguiu em frente.
Tomou uma boa "chuveirada" e lavou os cabelos enquanto a banheira enchia de água quente. Aplicou a máscara hidratante e pôs a touca térmica. E finalmente deixou seu corpo submergir no abraço confortável da água quente. Respirou fundo os vapores perfumados da banheira repleta de espuma e sais de banho. E sentiu o estresse acumulado de muitos dias de paranoia diluindo-se no calor úmido da banheira.
Depois de sair muito a contragosto do banho relaxante e drenar a banheira. Terminou o processo de lavar a máscara capilar e então aplicar o condicionador. E foi só quando se enrolou na toalha e já estava saindo do banheiro que notou o espelho embaçado e fez questão de limpá-lo, que finalmente pode dar uma boa olhada em si mesma pela primeira vez em alguns dias.
Haviam profundas olheiras sob seus olhos que davam um aspecto meio sombrio e doentio ao seu semblante. Seus cabelos, normalmente de rosa chiclete alegre ou outra cor igualmente vibrante, estavam quase que totalmente descoloridos. Seus lábios estava rachados e feridos de tanto morde-los de preocupação e ansiedade. A pele estava definitivamente pálida e ressecada, completando o quadro cadavérico de sua aparência atual.
Balançando a cabeça veementemente para espantar os pensamentos sobre sua aparência da cabeça, Cherry saiu vigorosamente pela porta. Não tinha tempo para se preocupar com essas coisas supérfluas, havia acordado tarde e ainda tinha muito a pesquisar na biblioteca que ainda fecharia mais cedo por ser Domingo. Passou na cozinha para pegar qualquer coisa para ir comendo no caminho depois de se vestir e saiu apressada de casa. Sua mãe não havia ainda saído do quarto, mas não tinha tempo para se preocupar com isso também.
***
Dessa vez fez o caminho de forma muito mais fluida e rápida, tendo as memórias da viagem anterior frescas em sua mente. Chegando logo ao seu destino e prontamente se dirigindo às seções onde se encontravam os livros que buscava. Pensou ter visto a bibliotecária simpática de cabelos roxos quanto entrou, mas ao olhar novamente não pode encontrar sinal algum da mesma.
Tão logo tinha seu material de estudo selecionado, encontrou uma mesa no canto da ainda mais vazia biblioteca do que de costume e pôs-se a continuar sua pesquisa sobre o gesto que a assombrava. E graças a coincidência estranha da seita secreta de magos egípcios apontada por John, tinha uma nova pista: sociedades secretas.
As poucas horas que tinha antes que a biblioteca se fechasse passaram tão depressa que nem notou seu estômago roncando de fome. Notou menos ainda que as poucas pessoas que passavam por ali foram todas embora e já não sobrava ninguém. A única coisa que a fez finalmente emergir das páginas empoeiradas foi a sombra de alguém parando a sua frente.
Levantou os olhos lentamente para dar de cara, para sua surpresa, com a bibliotecária simpática do dia anterior.
- Hey...! - Cherry disse com uma animação decrescente ao notar a expressão desconcertada da mesma.
- Oi... Bem... É que... Nos estamos, meio que, fechando... Agora...
Cherry a olhou meio pasma por alguns segundos, com a boca pendendo vergonhosamente aberta, antes de se dar conta do que aquilo queria dizer.
- Ih! Droga! - respondeu se desesperando e desajeitadamente começando a empilhar todos os livros.
A bibliotecária riu e tocou seu ombro.
- Calma, está tudo bem... Eu guardo os livros, é meu trabalho, sabe?
- Ah... Mas... Não. Você vai sair atrasada por minha culpa, né? Não, não, não... Olha só... Eu te ajudo a guardar os livros. Sei direitinho onde eles estavam. A gente termina rapidinho!
Rindo ainda mais, a bibliotecária tentou convence-la de que estava tudo bem, mas finalmente cedeu a insistência da garota. E as duas juntas puseram os livros em seus devidos lugares e terminaram de arrumar o que faltava da biblioteca antes de saírem.
Depois de se despedir de algumas pessoas que ficaram para terminar de trancar o lugar, a bibliotecária se aproximou de Cherry com aquele sorriso simpático que era sua marca registrada.
- Então... Você está com fome?
- Hã? - respondeu a garota confusa.
- Fome. Comida. Você come, não é? Você chegou aqui na hora do almoço e não comeu nada até agora... Deve estar com fome.
- Ah... Sim... Pra falar a verdade eu estou, mas-
Antes que pudesse dizer mais qualquer palavra ou inventar uma desculpa qualquer, a bibliotecária disse de forma autoritária:
- Então vamos comer. Tem uma lanchonete aqui perto que faz uns sanduíches vegetarianos sensacionais. Não que eu seja vegetariana, mas eles são tão bons assim.
Incapaz de negar, Cherry simplesmente acenou a cabeça e a acompanhou. O sanduíche era realmente bom, e realmente a deixou satisfeita. Nunca havia comido rodelas de pepino tão bem temperadas que poderiam facilmente substituir um hambúrguer caprichado. Sua fome também era tamanha que mal pôde conversar, mas ainda assim a bibliotecária conseguiu faze-la rir uma ou duas vezes.
Quando tentou pagar a sua conta, foi impedida sem chances de argumentação. A bibliotecária era muito simpática, sim, mas também tinha aquela característica impositiva e incisiva que se espera de bibliotecárias que não dava muito espaço para qualquer discussão. Mas Cherry não reclamaria, aqueles momentos tinham sido os mais alegres da sua semana.
A garota acompanhou a bibliotecária até, surpreendentemente, sua moto. E depois admirar e fazer mil perguntas sobre incrível a chopper retrô da mesma, finalmente se despediu.
Depois de dar as costas e alguns passos, Cherry finalmente se deu conta que em nenhum momento havia perguntado o nome da bibliotecária. Após perceber sua incrível falta de tato, ela parou e se virou depressa. E apesar de estar esperando que a bibliotecária já estivesse indo embora, a encontrou no mesmo lugar, montada na moto e olhando diretamente para ela.
- Sinto muito... - disse a bibliotecária de uma forma que Cherry mais leu em seus lábios do que ouviu propriamente.
E então, a bibliotecária pôs a língua para fora e com o indicador direito tocou em sua ponta. Em seguida virou-se, ligou a moto e partiu. Enquanto Cherry ficou lá, paralisada no mesmo lugar, com o seu coração batendo mais forte do que imaginava ser possível.
sábado, 20 de fevereiro de 2016
Parcimônia Frenética #8 - Na ponta da língua (Parte 7)
"Você não pode fazer nada."
"Sempre foi assim."
"Isso não pode estar acontecendo!"
"Você vai fazer o que deve ser feito?"
"..."
"Você vai-"
"Vou..."
"Você vai causar algum problema?!"
"Não..."
***
"Sempre foi assim."
"Isso não pode estar acontecendo!"
"Você vai fazer o que deve ser feito?"
"..."
"Você vai-"
"Vou..."
"Você vai causar algum problema?!"
"Não..."
***
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Parcimônia Frenética #7 - Na ponta da língua (Parte 6)
"Isso não está acontecendo..."
"Isso não está acontecendo..."
"Não isso... Isso não é possível..."
***
"Isso não está acontecendo..."
"Não isso... Isso não é possível..."
***
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
Parcimônia Frenética #5 - Na ponta da língua (Parte 5)
Os amigos a encaravam com expressões mistas, mas todas demonstrando algum grau de incompreensão. Enquanto Cherry ficava parada ali, com o dedo na língua. Sentindo um gosto levemente azedo e metálico, provavelmente por ter passado a mão pelos corrimões enferrujados da escola. E se sentindo como nada além de imbecil.
- Err...
- Hmm...
- Ah, uh...
Nada. Ninguém esboçava nenhum sinal de reconhecimento. Era como se estivessem vendo o gesto pela primeira vez na vida. E Cherry se sentia mais idiota a cada segundo.
- Err...
- Hmm...
- Ah, uh...
Nada. Ninguém esboçava nenhum sinal de reconhecimento. Era como se estivessem vendo o gesto pela primeira vez na vida. E Cherry se sentia mais idiota a cada segundo.
sábado, 12 de dezembro de 2015
Parcimônia Frenética #4 - Na ponta da língua (Parte 4)
Quando Cherry acordou no dia seguinte a sua mãe já havia ido trabalhar. Isso não era tão comum assim, mas também não era incomum. Ela simplesmente deixou esse fato de lado e preparou ela mesmo seu café da manhã. Talvez uma manha calma e isolada com seus pensamentos fosse melhor mesmo. Passou a manhã largada no sofá em frente à televisão com uma tigela de cereais nas mãos e risos bobos causados pelos desenhos matinais.
Quase perdeu a hora, mas não por não ter percebido que horas eram. Isso seria muito difícil. A boa percepção de Cherry quase nunca a deixava na mão em relação a horários. Se ela quase se atrasava, ou chegava a se atrasar, ela fazia por vontade própria. Essa manhã a causa era um misto de preguiça e nervosismo. Talvez não nervosismo em si, mas ansiedade. Quanto mais a hora de sair para a escola, mais ela se preocupava com o que faria.
Quase perdeu a hora, mas não por não ter percebido que horas eram. Isso seria muito difícil. A boa percepção de Cherry quase nunca a deixava na mão em relação a horários. Se ela quase se atrasava, ou chegava a se atrasar, ela fazia por vontade própria. Essa manhã a causa era um misto de preguiça e nervosismo. Talvez não nervosismo em si, mas ansiedade. Quanto mais a hora de sair para a escola, mais ela se preocupava com o que faria.
terça-feira, 3 de novembro de 2015
Parcimônia Frenética #3 - Na ponta da língua (Parte 3)
Pela primeira vez em muito tempo Cherry estava esbarrando nas pessoas e tropeçando nos próprios pés. Sua costumeira atenção acima do normal com seus arredores substituída pela necessidade irracional de fugir. A sensação de que havia algo errado com aquele gesto, com aquele homem, era tão forte que a estava deixando nauseada. Não era exatamente medo, mas seja lá o que fosse enevoava os seus pensamentos racionais e a incitava a sair dali.
Ela desacelerou o passo quando se julgou já longe o suficiente daquela situação. Respirou fundo e finalmente olhou em volta, mais para descobrir onde estava do que para se certificar que não tinha sido seguida. Ela sabia que o homem não iria atrás dela. Assim como a senhora, aquele homem simplesmente continuaria seu caminho como se nada houvesse acontecido. Tirou a toca, se sentido subitamente quente, e começou a caminhar.
Ela desacelerou o passo quando se julgou já longe o suficiente daquela situação. Respirou fundo e finalmente olhou em volta, mais para descobrir onde estava do que para se certificar que não tinha sido seguida. Ela sabia que o homem não iria atrás dela. Assim como a senhora, aquele homem simplesmente continuaria seu caminho como se nada houvesse acontecido. Tirou a toca, se sentido subitamente quente, e começou a caminhar.
domingo, 18 de outubro de 2015
Parcimônia Frenética #2 - Na ponta da língua (Parte 2)
O estranho gesto da senhora foi progressivamente posto de lado entre os pensamentos de Cherry enquanto ela completava seu caminho para casa. Tendo toda a situação bizarra sido completamente apagada de sua mente no momento em que bateu a porta atrás de si após entrar em casa.
A casa, como sempre, estava vazia. A mãe só chegaria do trabalho mais tarde, às vezes trazendo alguma coisa gostosa comprada num restaurante ou lanchonete no caminho. Ela largou a jaqueta grande e pesada no gancho atrás da porta, e pulou para fora das botas enquanto se dirigia para a escada deixando-as jogadas de qualquer jeito num canto da sala.
Ela subiu até o segundo andar da casa e foi direto para o seu quarto. Sem nem se preocupar de trocar de roupas, se jogou na cama, pôs os fones de ouvido e começou a navegar pelos diversos aplicativos e redes sociais através do celular. Sequer notou o tempo passar e o dia escurecer. Plenamente livre de todas as preocupações. Mas, mesmo assim, ouviu o carro parar em frente a casa, os passos de salto andando até a porta e as chaves girando na fechadura. Sua mãe havia chegado.
A casa, como sempre, estava vazia. A mãe só chegaria do trabalho mais tarde, às vezes trazendo alguma coisa gostosa comprada num restaurante ou lanchonete no caminho. Ela largou a jaqueta grande e pesada no gancho atrás da porta, e pulou para fora das botas enquanto se dirigia para a escada deixando-as jogadas de qualquer jeito num canto da sala.
Ela subiu até o segundo andar da casa e foi direto para o seu quarto. Sem nem se preocupar de trocar de roupas, se jogou na cama, pôs os fones de ouvido e começou a navegar pelos diversos aplicativos e redes sociais através do celular. Sequer notou o tempo passar e o dia escurecer. Plenamente livre de todas as preocupações. Mas, mesmo assim, ouviu o carro parar em frente a casa, os passos de salto andando até a porta e as chaves girando na fechadura. Sua mãe havia chegado.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Parcimônia Frenética #1 - Na ponta da língua (Parte 1)
Esther era uma adolescente descolada de 17 anos, terminando seus estudos escolares e ansiosa pela vida de caloura na faculdade. Gostava de jaquetas largas e toucas, usava all-star e tinha uma argola no lado direito do nariz. Usava maquiagem pesada nos olhos e estava constantemente mascando chiclete. E, como a adolescente descolada que era, não gostava nem um pouco do seu "nome de velha", Esther. De fato, o nome vinha de sua bisavó. Então, para os amigos e chegados o seu nome era "Cherry", graças aos cabelos rosa-escuros.
Enfim, Cherry era uma adolescente bem comum. Não muito diferente de muitas outras adolescentes terminando seus anos de escola por aí. Mas Cherry era uma garota muito atenta, perceptiva. Sempre prestava atenção ao seu redor e nas pessoas próximas. E isso tinha lhe salvado de muitos problemas e situações embaraçosas até agora. Até agora.
Enfim, Cherry era uma adolescente bem comum. Não muito diferente de muitas outras adolescentes terminando seus anos de escola por aí. Mas Cherry era uma garota muito atenta, perceptiva. Sempre prestava atenção ao seu redor e nas pessoas próximas. E isso tinha lhe salvado de muitos problemas e situações embaraçosas até agora. Até agora.
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